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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008

31.03.08

A Crise do Filho do Homem

categorias: reflexões


A interpretação teológica da morte de Jesus na cruz, como sacrifício por nossos pecados, fez-nos esquecer com demasiada pressa os reais motivos históricos que o levaram ao tribunal religioso e político e por fim ao assassinato na cruz.
Cristo não foi simplesmente a doce e mansa figura de Nazaré. Foi alguém que usou palavras duras, não fugiu a polêmicas e para salvaguardar a sacralidade do templo, usou também da violência física. O contexto de sua vida, como as pesquisas recentes mostraram, é comum a dos camponeses e artesãos mediterrâneosque viviam uma resistência radical, mas não violenta contra o desenvolvimento urbano de Herodes Antipas e o comercialismo rural de Roma, imposto na Baixa Galiléia -terra de Jesus - que empobrecia toda a população. Pregou uma mensagem que constituiu uma crise radical para a situação política e religiosa da época.Anunciou o Reino de Deus em oposição do reino de César e em vez da lei, o amor.
Reino de Deus apresenta duas dimensões, uma política e outra religiosa. A política se opunha ao Reino de César em Roma que se entendia filho de Deus, Deus e Deus de Deus, os mesmos títulos que os cristãos mais tarde irão atribuir a Jesus. Tal atribuição a Jesus era intolerável para um judeu piedoso e um crimede lesa-majestade para um romano. A outra versão, a religiosa, se chamava apocalíptica que significava: face às perversidades do mundo, esperava-se aintervenção iminente de Deus e a inauguração de um Reino de justiça e de paz.
Jesus se filia a esta corrente. Apenas com a diferença: o Reino é um processo que apenas começou e vai se realizando à medida em que as pessoas mudam mentes e corações. Só no termo da história ocorrerá a grande virada com um novo céu e uma nova Terra. Essa eutopia (realidade boa), não a Igreja, é o projeto fundamental de Jesus. Ele se entende como aquele que em nome de Deus vai acelerar semelhante processo. Essa concepção de Reino colocou em crise os vários atores sociais, os publicanos e saduceus, aliados dos romanos, a classe sacerdotal, os guerrilheiros zelotas e principalmente os fariseus. Estes são os opositores principais do Filho do Homem, pois ao invés do amor pregavam a rigidez da lei, no lugar de um Deus bom, "Paizinho" (Abba), um Juiz severo.
Para Jesus Deus é um Pai com características de mãe misericordiosa.
Jesus faz desta compreensão o centro de sua mensagem. Entende todo pode rcomo mero serviço. Rejeita as hierarquias porque todos somos irmãos e irmãs, sem mestres e pais.
A crise que suscitou, levou à decretação de sua morte na cruz. Jesus entrou numa aguda crise pessoal, chamada pelos estudiosos de "crise da Galiléia". Sente-se abandonado pelos seguidores, vislumbra no horizonte a morte violenta, como a dos profetas. A tentação do monte Getsêmani representa um paroxismo: "Pai afasta de mim este cálice". Mas também o propósito de tudo suportar e de levar seu compromisso até o fim. Na cruz grita quase desesperado:"Meu Deus, por que me abandonaste"? Mesmo assim continua chamando-o de "MeuDeus". A Epístola aos Hebreus testemunha: "Entre clamores e lágrimas, suplicou Àquele que o podia salvar da morte". Versões críticas antigas dizem "e não foi atendido…, apesar de ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer por meio dossofrimentos" (5,7-8).
Sua última palavra foi: "Pai em tuas mãos entrego o meu espírito",expressão suprema de uma confiança ilimitada. De fato, ele é apresentado como o protótipo do homem que suportou até o fim o fracasso do projeto de vida, crendo num sentido radical mesmo dentro do absurdo existencial.
A ressurreição mostrou o acerto de tal atitude. Foi a base para proclamá-lo mais tarde como Filho de Deus e Deus encarnado.
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Leonardo Boff

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  • Postado em 00:18:35

30.03.08

Diferentes representações do rosto de Jesus

refletem a necessidade humana da presença do "DEUS CONOSCO"

ocidental-Leonardo da Vince

Manet- ocidental

Evangelho africano de Mafa,abaixo Cristo negro da Polinésia

Jesus da China 

Emaús- IndonésiaRembrandt-ocidental

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Qual a verdadeira face de Jesus?

A face de Jesus recriada por computação gráfica
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  • Postado em 16:18:54

A Pedagogia de Jesus no encontro com os discípulos

Em Lucas 24, 13-35, Jesus nos deixa uma importante orientação pedagógica, espiritual e missionária para os encontros catequético-evangelizadores. De fato, nesse encontro com os discípulos de Emaús, Ele nos ensina como se faz catequese.
Escuta os dois discípulos - Lc 24, 13-24
Jesus se aproxima dos dois discípulos como um amigo e começa a caminhar com eles. Faz uma importante pergunta: o que é que vocês andam conversando pelo caminho? E eles começam a falar da situação que estão vivendo naquele momento, tristeza, desânimo, incompreensão dos últimos acontecimentos. Ao escutá-los, Jesus fica por dentro da realidade, percebe seus sentimentos e dúvidas. Ele começa o encontro catequético-evangelizador pela acolhida, pela escuta, pela conversa sobre a vida. Em outras palavras, ele catequiza/evangeliza a partir da experiência ou da realidade vivida pelos dois discípulos.
Ilumina a vida com a Palavra de Deus - Lc 24,25-27
Depois de escutar os discípulos que estavam caminhando, Jesus ilumina a vida deles, a situação que estão vivendo, com a Palavra de Deus. Ele soube escolher aqueles textos bíblicos próprios para poder orientar a vida deles. Ao refletir sobre a Palavra de Deus, Jesus os leva a compreender e a interpretar de modo diferente os fatos ou a situação vivida por eles. Este é o segundo passo do encontro catequético de Jesus: escutar a Palavra de Deus para orientar e dar novo sentido à vida.
Celebra com eles - Lc 24, 28-31
Ao escutar os discípulos e ao falar da Palavra de Deus, Jesus foi criando um clima de abertura e amizade. A conversa agrada tanto que o convidam para ficar com eles. E na hora do jantar, Jesus se dá a conhecer ao abençoar e partilhar o pão. Com isso, os olhos dos discípulos se abrem, compreendem que Jesus, agora ressuscitado, está presente na comunidade que se reúne para partilhar o pão da vida. O terceiro passo do encontro catequético de Jesus é a celebração comunitária, a Eucaristia – A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da vida cristã, sua expressão mais perfeita e o alimento da vida em comunhão...” (DA 158), - onde acontece o encontro pessoal com Ele e com os outros irmãos e irmãs. A partir deste encontro tudo muda na vida dos discípulos. Esta mudança é o ponto alto do encontro catequético-evangelizador.
Desperta para uma nova atitude de fé e vida - Lc 24,32-35
A experiência do encontro com o Cristo Ressuscitado desperta nos dois discípulos uma nova atitude de fé e vida. Acontece uma grande transformação na vida deles. Sentem-se animados e renovados. Acende-se a luz da fé, da esperança, da coragem, do entusiasmo, do amor. Começam a testemunhar, por palavras, atitudes e gestos a Boa Notícia de Jesus Cristo. Este é o quarto passo do encontro catequético-evangelizador de Jesus: a conversão, o ardor, o compromisso, a missão – os leigos e leigas são pessoas da Igreja no coração do mundo, e pessoas do mundo no coração da Igreja (DA 209). Para cumprir sua missão com responsabilidade pessoal, os leigos necessitam de sólida formação [...](DA 212).
O quarto passo é conseqüência dos três primeiros.

Para conversar:
1. Das atitudes pedagógicas de Jesus, quais, no momento, precisamos dar mais atenção em nossa catequese?
2. O Documento de Aparecida (DA) aponta para a centralidade da Palavra. Como operacionalizar isso?


Centro diocesano Pastoral

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  • Postado em 15:55:51

" A PAZ ESTEJA CONVOSCO"


Não existe saudação mais completa do que esta. Sua significação tem força radical de sustentação e de garantia. Seu alcance articula sérias exigências de comprometimento. Enquanto formulação, além de dignificante, revela amplitude, embora de modo tão sintético, no gênero literário dos votos que se fazem. O objeto dos votos, a paz, tem raízes e o seu alcance está para além de evidências comuns e de circunstâncias corriqueiras. Esta formulação de votos, embora proclamada, mais habitualmente, em ocasiões especiais, deve fazer parte da atitude nobre de urbanidade de cada um, assim como se diz ‘muito obrigado’, ‘agradecido’, quando se recebe ajudas e favores, pequenos ou grandes. Particularmente, este augúrio tem razão de ser, devendo brotar dos corações, quando se faz a necessária retomada nos diferentes ciclos da vida, ainda que seja o simples fato de iniciar uma nova contagem dos dias que se sucedem para compor o tempo fugaz de cada ano. A fugacidade do tempo que passa importa pouco. Tudo passa. Dos votos de paz importa o que recria, permanece e sustenta. Por isso mesmo deve tornar-se, para além das ocasiões especiais, a saudação que compromete a todos, em tudo, todo dia e toda hora.

“A paz esteja convosco” ganhou especialidade em razão do coração que a pronunciou, enquanto nascedouro insubstituível e inesgotável da verdadeira paz. Foi Cristo Jesus que assim saudou aos seus discípulos reunidos, a portas fechadas, por medo. O mesmo medo que, ontem e hoje, emoldura, explica e dá nome às covardias de tantos que comprometem a verdade; às conveniências de muitos que lutam para garantir seus privilégios e benesses; ao autoritarismo que entrava, com impedimentos radicais, as mudanças que cada tempo põe como exigência; às sonegações de todo tipo, em dados, informações ou compromissos, para não deixar entrar a quem e o que deve.

Esta saudação trouxe e garantiu uma mudança radical na práxis daqueles amedrontados, arriscados, por isso, à mentira, e emocionalmente localizados na sombra que impede a compreensão que liberta e desapega de leituras comprometidas dos fatos.

“A paz esteja convosco” inaugurou uma ponte entre o coração de Deus e o coração de cada discípulo seu. A conseqüência imediata é a audácia na busca da verdade, a liberdade de estar e passar pelos lugares, como simples servidores, com a capacidade amorosa de se compreender e encontrar o seu próprio sentido de ser na oferta de si. Por isso, todos os que escutam esta saudação se tornam os verdadeiros promotores da paz, a razão de sua mais desejável bem-aventurança. Não há, pois, outra referência para a discussão e adequada compreensão das múltiplas, e até divergentes, compreensões da paz, bem como os modos de sua defesa,promoção e conquista. Assim é que permanece o desafio de compreender a paz para além do simples fato da inexistência ou da trégua de guerras. Menor não é o desafio da superação de um pacifismo que justificado por um tipo de irenismo compreende a paz como simples garantia do bem-estar de um grupo, de um povo ou de uma pessoa. Insuportável ao extremo é a compreensão da paz enquanto inclusão do aniquilamento do inimigo, físico ou moral, com o uso de diferentes armas, gerando sistemas indiscriminadamente destrutivos, comprometendo a vida no mundo. Embora seja de extrema importância, não basta compreender a paz, na sua compleição política e diplomática, envolvendo e até enaltecendo as cúpulas nos idealismos de entendimentos e diálogos, deixando, contudo, muitas vezes, de fora e sem levar em conta a base nas exigências comuns que a todos têm de envolver na cultura da paz.

“A paz esteja convosco” sustenta-se no coração de Deus em muitos pilares que indicam as condições de possibilidade para sua consecução eficaz e efetiva. A garantia vem de lá. Aliás, é graça de Deus. A vivência e a efetivação da paz dependem dos seus promotores. Na lista destes não pode faltar o nome de ninguém. É a única possibilidade de nascer uma verdadeira cultura da paz. Para isso, é preciso compreender a paz como “obra da justiça” (Is 32,17). Por isso, não é raro dizer e ser clara a convicção de que o novo nome da paz é justiça. Suas medidas e configuração normativa põem todos, cada um, o tempo todo, nos gestos pequenos ou nas grandes decisões, na vida pública ou no recôndito das intimidades, em processo social de se deixar passar a limpo. À paz como “obra da justiça” é preciso aliar o compromisso de uma contundente recomendação apostólica: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21). Sustentados por estes dois pilares da compreensão da paz, serão evitados os comprometimentos que interpretações, conveniências e mentalidades tacanhas sempre operam efetivando descalabros institucionais e inconveniências pessoais. Saber-se-á, de verdade, o gosto gostoso do que significa “A Paz esteja convosco”.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo

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  • Postado em 01:47:45